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Escola pública não é de graça
 


 

TOLERÂNCIA ZERO


Numa época em que TOLERÂNCIA é a palavra da moda, eu assumo que tenho me notado bastante intolerante. Definitivamente eu não tolero certas idiossincrasias. Não tolero, por exemplo, que não tenha nas escolas de ensino fundamental bibliotecas decentes. Dá pra engolir que, mesmo com o discurso padrão de que se deve estimular o gosto pela leitura, não tenha bibliotecas em escolas e muito menos a autorização para se contratar profissionais qualificados para organizar acervos e orientar os alunos na escolha dos livros? Dá pra tolerar que a rede pública de ensino não considere a função do bibliotecário necessária em uma escola? Ah! Mas temos salas de leitura: Ok! Um puxadinho para quebrar o galho.
Bom, enquanto a gestão pública não atenta para a contradição entre discurso e prática, é uma maravilha ver o empenho de pais e mães que, por iniciativa própria, montaram uma biblioteca de respeito na EMEF Amorim Lima, no Butantã, em São Paulo. E há mães que voluntariamente dão expediente na biblioteca, que foi criada para atender não só aos alunos como a comunidade local. E antes que alguém levante para tacar pedras com o velho argumento de que isso é uma obrigação da administração pública e não dos pais, vou logo defender: esse grupo de pais não iria ficar de braços cruzados, apenas reclamando da ineficiência de gestores e políticos. Esses pais sacaram que era melhor fazer as duas coisas: ao mesmo tempo em que pressionam e exigem um serviço de qualidade, tocam o barco para que seus filhos (e os filhos de seus vizinhos) tenham um acesso digno a uma
biblioteca de verdade.

Mas que vergonha eu tenho de um país que não acha que ter uma biblioteca em cada escola seja relevante no cotidiano da nossa Educação. Senhores secretários (municipais e estaduais), já não passou da hora de fazer algo a respeito? Além de gerar emprego, valorizar a função do bibliotecário, ainda atenderia ao discurso que políticos em campanha gostam tanto de repetir: “Temos que incentivar a leitura”. Que tal trazer o discurso para a realidade das escolas?
E essa não é uma contradição exclusivamente das escolas públicas. Quantas escolas particulares que conhecemos que têm uma boa biblioteca? Meus filhos estudavam em uma escola particular descolada, que prima por projetos culturais bem interessantes, e eu ouvi uma professora bem qualificada (minha amiga, até) dizer em uma reunião em que alguns pais sugeriram doar uma coleção do Monteiro Lobato para a escola: “Monteiro Lobato é muito chato. Tem uma linguagem arcaica”. Essa mesma escola tinha em seu “acervo” títulos bobocas como Capitão Cueca e Diário de Um Banana (ótimos para boas risadas, ok. Mas bem longe da literatura). E isso em uma escola de classe média alta, em um bairro nobre de São Paulo. Não estou falando de periferia... Não, eu não tolero essa hipocrisia.

E sabe o que eu também não tolero? O município gastou R$300 mil para pintar uma escola e, menos de dois meses após a reforma, as paredes já estavam rachadas, com vazamentos, e as portas e corrimãos descascando, um horror total. E por quê? Material de baixa qualidade, trabalho desqualificado, má administração dos recursos e por aí vai. Ou seja, jogamos dinheiro público fora. Nosso imposto foi parar na lixeira. Essa é a situação na Amorim Lima. A escola foi toda pintada em janeiro e o serviço de péssima qualidade está lá para quem quiser checar. Aquelas portas descascando parecem nos lembrar da mentalidade corrente: Ah! É para pobre, pode fazer de qualquer jeito. Não, não pode. E escola pública não é para pobre: é para todos. E todos merecem um retorno digno do imposto que paga.
E aí eu me pergunto: temos que tolerar isso? Por que as unidades do Sesc, por exemplo, conseguem fazer reformas duradouras e manter suas dependências sempre limpas e bonitas e nas escolas públicas, mesmo gastando-se tanto, os ambientes sempre parecem caóticos e inacabados e largados?
Lembro do que me disse o diretor do Sesc-Sp, Danilo Santos de Miranda (um sujeito que eu respeito muito, à propósito), em uma entrevista para a revista Poder (www.revistapoder.com.br), em outubro do ano passado: “Nós educamos até com a arquitetura”, ressalta Danilo e dá o exemplo de que, mesmo nas unidades do Sesc instaladas nas regiões mais desfavorecidas ou cercadas de favelas, ninguém depreda as instalações, estraga o jardim, joga lixo no chão ou picha os muros. Sabe por quê? “Quando a população sente que é respeitada, ela respeita”, ensina o gestor. Claro, se a pessoa chega em um lugar todo limpinho, bonito, com serviço de primeira e é bem tratada, ela se sente confortável e não vai zoar, né? O pensamento do Danilo é bem diferente do que um diretor de uma escola pública me contou que ouviu de um engenheiro da secretaria estadual de obras: “não adianta fazer um banheiro bonito, eles vão quebrar tudo”. Não, amigo. É justamente o contrário: se tivermos banheiros bonitos e limpos nas escolas, as crianças crescem acostumadas à limpeza e à boa estética. O sujeito quebra tudo por revolta, frustração e auto-estima baixa. Já viram alguém quebrar alguma coisa porque está feliz e sendo bem tratado?

Mas está lá nas paredes e portas da Amorim o resultado da reforma de R$ 300 mil. E isso dá para tolerar? Estamos rasgando dinheiro. A diretora da Amorim Lima mostrou há alguns meses o lamentável resultado da obra para o secretário municipal de educação de São Paulo, Alexandre Scheider, que foi muito legal de aparecer lá na escola durante um café da manhã dos pais. Só que até hoje, meses depois, eu vou à escola e a pintura mal feita está cada vez mais evidente, nas portas e paredes pra quem quiser ver. E não vou nem falar do acabamento, ridículo, tudo falhado e torto, feito de qualquer jeito. Confesso que olho para aqueles cantinhos mal retocados e aquela falta de capricho faz meu sangue subir (na verdade, confesso, outro dia me deu vontade de chorar): é muita falta de amor. É tratar o nosso bem comum com muito descaso e não pensar nas pessoas (nas crianças!!!) que frequentam esses espaços.

Hello! Não é frescura: ESTÉTICA É FUNDAMENTAL NA EDUCAÇÃO. Quando vamos receber uma visita na nossa casa, limpamos e arrumamos tudo para que a pessoa se sinta feliz e confortável, certo? Não nos empenhamos para oferecer o melhor? Pois temos que desenvolver na gestão pública essa mesma atitude: cada espaço público demonstra o empenho dos donos da casa, ou seja, dos gestores e da população. Eu tenho vergonha de receber alguém nessas nossas escolas. Elas demonstram o nosso desleixo com a educação do país. Volto a perguntar: dá para ser tolerante? Não, não dá.
Todo mundo também está careca de ouvir (e concordar) que a inclusão de portadores de deficiência mental e física é mais que necessária: é bom para quem tem e bom para os considerados “normais”, que aprendem a conviver e respeitar as diferenças. Só que, na prática, temos qualificado professores e funcionários das escolas para lidar com crianças portadoras de patologias psicológicas? Aliás, oferecemos acompanhamento psicológico para nossos alunos? Por que, em pleno século 21, um século pós-Freud, e com tanta discussão em torno do bullying e da violência nas escolas, ainda não temos psicólogos no quadro de funcionários das instituições de ensino? Dá para tolerar tanta incoerência? Não, não dá.

Então eu concluo que sou uma pessoa bastante intolerante. E não suporto esse discurso politicamente correto, sem uma prática equivalente. Os pais podem e devem cuidar da escola como se fosse uma extensão de suas casas -- o que de fato a escola é. Só que dá para os gestores dar uma ajudinha e usar o nosso dinheiro com mais eficiência? Que tal uma boa pitada de carinho e empenho na administração da nossa arrecadação fiscal??!!!
E nós, consumidores, vamos combinar? Diante da incompetência e do desinteresse: TOLERÂNCIA ZERO.

 



Escrito por vanessa.cabral às 19h56
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COMPLEXO DE COLONIZADO

 

Os descrentes de plantão que me desculpem, mas eu estou a cada dia mais apaixonada pela escola pública. A EMEF Des. Amorim Lima, em São Paulo, é um oásis. E não só na rede pública. É um oásis no mercado de educação brasileiro. Sim, há tempos a educação virou um mercado, e dos mais lucrativos. E mesmo na rede particular a qualidade, como sabemos, não é lá essas coisas.  Ou temos os colégios de métodos tradicionais – que ainda estão formando pessoas para o velho mundo e não sacaram que a demanda de hoje (e de amanhã) é outra – ou temos as escolas que se ancoram no discurso manjado do construtivismo ou em experiências como a da Escola da Ponte, de Portugal, mas sem a coragem necessária para derrubar os muros da velha pedagogia. Ficam, assim, tateando no meio do caminho.

Pois eu fiquei um tempo sem escrever aqui. Preferi observar como as coisas se desenrolam no cotidiano da Amorim Lima, e (basicamente) se eles entregam o que propagam. O método de ensino lá é de fato arrojado, se comparado à cena clássica da sala de aula com um professor falando diante do quadro negro e alunos espectadores em suas cadeiras. Na prática, é bem simples: parece o método usado em um mestrado, onde o aluno faz sua agenda de estudo, o conteúdo segue roteiros de pesquisa e um tutor orienta pequenos grupos de pesquisadores. E as crianças lêem e escrevem muito, discutem os assuntos, debatem entre si (quem disse que autonomia e criatividade são fáceis de encarar? É bem mais cômodo ter alguém mandando em nós do que aprender a fazer escolhas e tomar decisões e depois arcar com as conseqüências – boas ou ruins.) Ouvi alguém dizer: “Talvez esse não seja um método para todos os tipos de pessoas, tem gente que nasceu para ser mandada”. Pode até ser, mas reflito aqui: tem gente que nasceu para ser mandada ou receber ordens é um costume já tão enraizado na educação – seja em casa, seja na escola -- que a pessoa não teve a oportunidade de desenvolver a capacidade que todo ser humano tem de fazer escolhas por si mesmo? Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Pois é.

E o método da Amorim vai além da tentativa de imitação da Escola da Ponte, que é exemplar, mas vem de outra sociedade. Na Amorim, ouve uma evolução e uma adequação à realidade do país e ao conteúdo proposto pelo MEC, sem perder o norte da educação democrática tão bem defendida pelo professor José Pacheco.  A receita tem, claro, ingredientes raros: uma diretora porreta, animada e sem medo de arregaçar as mangas e conduzir sua equipe com entusiasmo contagiante; educadores apaixonados por esse método de ensino e que acreditam que podem fazer diferença – e, sim!, apesar da falta de estrutura, das condições salariais e blábláblá --;  um grupo de pais heterogênico (de formações e níveis sociais diversos) que não só cobram um serviço eficiente como cooperam e trabalham em conjunto com funcionários e educadores; e, claro, alunos que têm voz e são ouvidos. Parece difícil de acreditar, não? Pois é, eu fiquei muda neste primeiro trimestre observando se a coisa era fato. E a cada reunião (e são muitas!!!) que consigo ir, a cada festa ou evento ou mutirão, a cada retorno dos meus filhos da escola, eu fico mais crédula de que é possível ter uma escola democrática, com um ensino não só eficiente como libertador. E o mais raro: com discussões pedagógicas de alto nível.

Aí vão dizer: "lá vem essa mãe iludida"... Claro que tem muito que evoluir e o pessoal que freqüenta a Amorim sabe disso bem melhor do que qualquer um de fora. Tanto que há um debate contínuo (e incansável) entre pais, educadores, funcionários e alunos. Mas iludidos estão aqueles que ainda hoje não acordaram que há um caminho viável a ser percorrido. E que pagar altas mensalidades não é garantia de um ensino que prepare seu filho para o mundo de amanhã.  

Pela primeira vez, na rede pública ou na privada, eu vejo o discurso se confirmar na prática. E sem frescura, sem achar que estão reinventando a roda e com muita honestidade, assumindo erros e fraquezas (que, aliás, é a melhor atitude para quem quer evoluir). A roda já foi inventada, por favor!!!! Mas podemos ser criativos na maneira de usá-la. E é isso que este século exigirá: criatividade. Aquele mundo que fizemos no século 20 está nas últimas, dizem os historiadores, os economistas, os filósofos, os psicólogos, os astrólogos... E a educação vai continuar a mesma?

Só não entendo uma coisa: se a Amorim já desenvolveu esse knowhow há nove anos porque as outras escolas (públicas ou particulares que querem seguir esse modelo de escola democrática) não usam essa experiência local? É mais fácil pararmos para ouvir o que vem de fora e, com aquele nosso complexo de terceiro mundo tinindo, queremos imitar o estrangeiro. Nada contra, vivemos (graças a Deus!) uma troca global. Mas também desenvolvemos conhecimento local, que merecia ser compartilhado. Boa parte dessas escolas particulares, nas quais já paguei altas mensalidades, poupariam um tempo enorme tentando reinventar o óbvio.  Mas parece que quando temos uma experiência que dá certo, morremos de ódio e até torcemos para que fracasse. No fundo, admitamos: o que cada um quer mesmo é continuar imitando os colonizadores. E Freud continua explicando essas cabecinhas do século passado.

 



Escrito por vanessa.cabral às 17h07
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O EGITO É AQUI...

 

Hoje é dia 14 de fevereiro, meus filhos e mais 50 crianças (enfim!) tiveram o direito de ir à aula. SIM! TODOS ENTRARAM NA ESCOLA. A diretora da EMEF Desembargador Amorim Lima, Ana Elisa, nos contou empolgadíssima que o secretário de educação Alexandre Scheider, após ler este blog, ligou para ela, na sexta-feira, por volta das 11h da manhã. Indignado com o relato do texto BURROCRACIA 2, ele avisou que até o fim da tarde todas as vagas estariam liberadas para a matrícula. O que, de fato, aconteceu.

Que bom, senhor Scheider. Fico muito feliz em saber que temos alguém responsável (e disposto a ouvir a sua clientela) no comando da educação municipal de São Paulo. E mais que isso, que podemos trabalhar juntos (pais, professores, funcionários e gestores) por um serviço mais respeitoso e eficiente, que atenda aos direitos do consumidor.

Sim, somos consumidores. Todos nós pagamos por esse serviço e temos o direito (e dever) de cobrar qualidade e respeito. Ainda mais por ser um serviço público e que, longe de ser de graça, tem um alto custo para o país.

Claro que fomos ouvidos pela pressão que exercemos ao longo de toda semana passada, inclusive via assessoria de imprensa da SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO. Não sou ingênua, sou jornalista: talvez se eu fosse doméstica a pressão não teria tanta força. Infelizmente cultivamos a mentalidade de que a faixa da sociedade mais a base da pirâmide pode ser tratada como boiada, não merece ser ouvida, não deve dar palpite. Como bem me disse o escritor Laurentino Gomes, em uma entrevista para revista Poder (www.revistapoder.com.br), o maior custo histórico do Brasil é esse: a população não ter sido convidada a participar das decisões políticas durante 500 anos. Felizmente, ele lembra, estamos contabizando 25 anos de democracia. "Nunca houve um período tão longo de participação coletiva", diz.

Pois é, enquanto não mudarmos essa mentalidade, carregaremos um peso histórico que emperra o real crescimento do país. Na prática, no cotidiano, só enxergo uma saída, aquela que defendo desde que entrei nessa e resolvi começar a escrever este blog: o uso dos serviços da rede pública por representantes da classe média, mais articulada e esclarecida, que sabe exigir e cobrar qualidade. 

A experiência da semana passada serviu para eu notar (e acreditar) que de fato o ingresso, na rede pública, de pessoas que sabem como exigir seus direitos e cobrar que gestores cumpram suas funções, é a única maneira de revertermos na prática um processo que já se mostrou ineficiente.

O que eu encontrei na Amorim Lima, onde há uma mistura muito interessante de pessoas de vários níveis sociais e culturais? Uma turma de pais/consumidores articulada, que não vai se intimidar com um argumento burocrático qualquer e se conformar com um procedimento que anda tumultuando o início do ano letivo na capital paulista e causando muita encrenca nas vidas de centenas de famílias.

Encontrei já hoje, no primeiro dia de aula, uma mãe animada e falante, que andou pesquisando leis que rondam este tema e encontrou um caminho viável (e legal) para mudarmos, juntos, o rumo desse tal processo centralizador que tira das famílias o direito de escolher a escola de suas crianças.

Senhor Scheider, agradeço a sua atenção. Agradeço porque o senhor fez o seu trabalho. O que é um ponto bem positivo num país em que temos que cobrar produtividade de pessoas que ganham salário e não exercem suas funções devidamente. O senhor ganhou alguns pontos no boletim.

Espero que, com a mesma atenção que dispensou aos casos pendentes da Amorim Lima, se empenhe em resolver os tantos outros absurdos que sabemos que estão rolando na matrícula de crianças na rede municipal de ensino de São Paulo. Um trabalho que o senhor não teria se o sistema fosse menos centralizador e totalitário, e desse mais autonomia para os diretores, funcionários, professores e associação de pais das escolas, que são quem de fato conhecem a demanda, as necessidades e desejos do seu consumidor. 

O mais importante (e a experiência da semana passada deixou isso bem claro para mim) é baixarmos as guardas, aposentarmos de vez o velho discurso de inimigos públicos, pararmos de apontar o dedo para quem está no comando ou desdenhar quem está embaixo, e caminhar juntos, em direção ao nosso objetivo comum: uma boa educação para nossas crianças. Todos queremos um país decente, com cidadãos éticos, certo? Pois é, isso começa na matrícula da escola.

Da faxineira da escola, passando por professores, pais, alunos... até o secretário de educação, todos estamos do mesmo lado. E estamos do mesmo lado no município, no estado e na federação. Outro absurdo que percebi semana passada: uma guerra fria entre a rede de educação do município e do estado. Uma bobagem sem fim, que começa desde os funcionários dos postos mais baixos no organograma da rede de ensino até os mais altos gestores. Sim, essa rixa é motivada, entre outras coisas, por um sistema de distribuição de verbas, disputas políticas e blábláblá. Mas, por favor, que não esqueçamos que o objetivo primordial disso tudo é a educação de crianças.

Crianças que abrem lindos sorrisos, correm para os braços de seus pais e contam animadas como foi incrível o primeiro dia de aula.

Não acabemos com os sonhos desses pequenos cidadãos por causa de intriga, falta ética, birra, má vontade ou pura burocracia.

Nosso lindo país não merece.

 


 



Escrito por vanessa.cabral às 19h34
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BURROCRACIA 2

Hoje é dia 7 de fevereiro, as aulas na EMEF Desembargador Amorim Lima começaram hoje e meus filhos e mais 50 crianças ainda não podem frequentar a escola porque a SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO ainda não liberou a matrícula delas. A diretora da escola, Ana Elisa, diz que está sobrando vagas e que a turma de quinta série, por exemplo, está com apenas 10 alunos. Mesmo assim a professora Fátima Pereira Timóteo, responsável pela transferência dos alunos, afirma que não tem vagas e, pior, que a diretora não sabe do que está falando. Ou seja, a professora, que trabalha num órgão burocrático da secretaria, acha que sabe mais do que a diretora que está na escola diariamente e conhece a realidade de seus alunos?

Eu liguei hoje para a professora Fátima. Ela foi muito gentil, porém repetia como uma gravação eletrônica o mesmo discurso, como se não estivesse ouvindo a minha solicitação. "Esse é o procedimento", dizia. E eu questionei porque não resolveram essas transferências antes do começo das aulas e ela repetia jargões que só servem para emperrar as soluções. Tratam os alunos como números e não como crianças que serão educadas para serem futuros cidadãos. Eu me senti falando com um robô. Uma tristeza.

Nessas horas, eu sinto muita vergonha de ser brasileira.

Pois esse tal procedimento, cara professora Fátima, tem de mudar. É falho e ineficiente.

Os diretores das escolas deveriam ter autonomia para atender os pais e matricular seus alunos. São eles, junto com os professores, que conhecem a realidade (e as necessidades) das famílias que procuram suas escolas.

E não uma burocrata, que trata crianças como números e toma decisões que vão afetar profundamente a vida das pessoas, sem um pingo de consideração ou conhecimento de causa. 

Esse procedimento dá margem a aberrações como uma mãe, que conhecemos na porta da Amorim Lima, que estava desesperada porque a SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO determinou que cada um de seus filhos pequenos estudassem em uma escola diferente. Será que esses gestores não entendem a loucura que será a rotina dessa família para levar e buscar cada filho num lugar diferente diariamente? 

E a diretora da Amorim Lima, Ana Elisa, uma das poucas na rede pública empenhada com a qualidade pedagógica de sua escola, tem que ficar implorando à SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO que libere a transferência de alunos. Sabe o que ela já ouviu como reposta? Que feche turmas.

Hoje fiquei uns 15 minutos tentando entender a lógica do raciocínio de gestores como a professora Fátima Pereira Timóteo, mas francamente não consegui.

A QUESTÃO É MUITO SIMPLES: Se tem vaga sobrando na escola, por que não transferem logo essas crianças?????

SANTO DEUS!!!!! Estamos falando de crianças que querem estudar em uma escola pública diferenciada, que demonstrou ter um modelo pedagógico muito bem-sucedido, com professores e pais empenhados em educar futuros cidadãos...

E por conta de burocracia vamos deixar esse bom exemplo de escola fechar turmas????? 

Senhor secretário Alexandre Schneider, querida professora Fátima, eu peço com todo o respeito que, por favor, olhem por isso. Se é esse o procedimento, não está na hora de mudar? Não está na hora de tratar com mais humanidade (e menos papéis) um assunto que está no cerne do futuro do país???

A SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO determinou que meu filho estude numa escola cujas dependências são lamentáveis, os professores e funcionários vivem faltando, e com histórico de violência conhecido. Ou seja, querem que o meu filho tenha um péssimo desempenho escolar, é isso? Isso é responsabilidade social, professora Fátima?

Os senhores estão negando a ele e mais 50 crianças a oportunidade de estudar em uma escola melhor por pura burocracia?

É, a coisa está muito séria.

E quando repito aqui que o maior problema da educação no Brasil hoje é a gestão, ainda dizem que eu não sei o que estou falando.

MAIS AMOR, POR FAVOR! 

Nossas crianças não são números.



Escrito por vanessa.cabral às 19h24
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BURROCRACIA

Hoje é dia 2 de fevereiro e enquanto a maior parte dos nossos amigos já estão levando os filhos para a escola desde segunda-feira - quando começou o ano letivo na rede particular -, não sabemos ainda se nossos filhos estão matriculados na Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima. Culpa da escola? Não.

A diretora, Ana Elisa, está empenhada em efetivar as matrículas de 52 crianças cujos pais escolheram a escola por conta do método de ensino desenvolvido lá. Só que a SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO não libera a matrícula por pura burocracia. Por quê? Porque são crianças que não moram no bairro da escola. E daí? 

A escola tem vagas sobrando, esses alunos querem ir para lá porque gostaram de lá, ou seja, têm a chance de ser alunos dispostos a colaborar para o bom desempenho escolar, mesmo assim a SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO não libera a matrícula.

E mais: querem que a diretora feche algumas salas.

Será que eu entendi direito? Quando temos uma escola pública de qualidade, com direção e professores empenhados e envolvidos com a função de educar, e alunos dispostos a aprender, a SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO recomenda que se diminua o número de turmas????

Qual é o propósito desse tipo de gestão da educação na capital paulista????

Prefiro ter uma visão otimista, mas só consigo enxergar três motivos para essa postura da SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO:

1. Indiferença: ao invés de estudar os casos, é mais fácil dizer não para qualquer solicitação que fuja do padrão (E QUE PADRÃO É ESSE???).

2. Negligência: aluno da rede pública não merece consideração - vai estudar em qualquer lugar que a secretaria determinar.  

3. Incompetência: a rede pública está sucateada, com as poucas boas escolas agonizando, porque não temos gente qualificada para fazer avaliações e premiar os bons exemplos, na gestão da educação do município de São Paulo, o maior centro urbano do país.


Gostaria tanto de estar errada. Que tenha acontecido apenas um mal entendido. Afinal o secretário estava de férias, é começo de ano, muito trabalho acumulado, enfim, uma loucura gerenciar um sistema de ensino tão grande quanto o da capital paulista. (SEJAMOS POSITIVOS, VAI? rs.)

Ok. Podem dar mil desculpas. Fato é que: as aulas começam na segunda-feira, dia 7. E meus filhos e mais 50 crianças aguardam uma resposta da SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO, sem saber se poderão ou não estudar na escola que escolheram.

E antes que a patrulha caia matando aqui em cima de mim: SIM!!!! Temos o direito de escolher a escola dos nossos filhos.

Na rede particular, os pais não escolhem em qual escola querem matricular seus filhos? Se o colégio é perto ou longe de casa, isso é um problema que a família tem que gerenciar. A opção tem mais a ver com o ambiente e o ensino, e menos com o endereço da escola.

Na rede pública, os pais deveriam ter ainda mais direito de escolher. Afinal, somos todos nós que pagamos não só os salários dos funcionários das escolas como os do secretário de educação e do prefeito. Quando essa gente vai entender que trabalha para a população? E não trabalha de graça. 



Escrito por vanessa.cabral às 16h51
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ESCOLA PÚBLICA APROVADA

A professora chorou. Os alunos da segunda série cantavam Carinhoso, de Pixinguinha com letra de João de Barro, a plenos pulmões, animadíssimos. O coro fez parte da Mostra Cultural, evento de encerramento do ano letivo na Escola Estadual Brigadeiro Faria Lima, em dezembro de 2010. Em cada sala, havia a exposição dos trabalhos das crianças: tudo muito bem montado, a propósito.

Mas até aí, novidade nenhuma. É um hábito nas escolas que valorizam o desempenho dos alunos promover uma exposição dos trabalhos no fim de cada semestre. O que nos chamou a atenção foi a reação das professoras. Que, para mim, foi simbolicamente representada na emoção da professora da segunda série ao ver seus pupilos de 7 e 8 anos cantando uma das músicas mais belas do repertório nacional.

O choro espontâneo da professora reflete o envolvimento afetivo que ela tem com as crianças que acompanhou ao longo do ano. E não é essa a grande carência da educação? AFETO. Comprometimento com os alunos: a responsabilidade de saber que, a frente de uma turma, ela exerce uma influência vital para a formação de cada criança - e não só na categoria ensino formal. Mais que matemática, português, geografia e história, a professora é um exemplo de postura, caráter e respeito. E isso parece que muitos professores andam esquecendo.

Ok.Ok. Um bando de gente vai abrir o bico: "Como essa mãe quer que o professor, com todas as dificuldades que enfrenta, enxergue a sua função como um ato de amor?"

Outro bando vai disparar: "Como é ingênua essa mulher."

Pois é: INGENUIDADE E AFETO - é o que mais vejo faltar nas escolas (públicas e privadas).

E quando vejo uma professora que, mesmo depois de anos de magistério, ainda se emociona com seus alunos, eu me encho de esperança. Sim, a HUMANIDADE é viável. Apesar e acima de tudo.

Concluímos a nossa experiência do primeiro ano desfrutando do nosso direito de matricular os filhos numa escola pública (que NÃO É DE GRAÇA) muito satisfeitos.

Comprovamos que é possível:

1. Há sim muitos profissionais qualificados (e empenhados) no cotidiano para que o ensino público deste país diminua o abismo cultural (e social) entre ricos e pobres.

2. Há sim recursos, embora na maioria dos casos sejam muito mal administrados.

3. Há sim a possibilidade saudável de pessoas de classes sociais distintas conviver em harmonia, com ganhos para todos os lados.

4. Há sim muito preconceito contra o ensino público. E enquanto (sobretudo) a classe média não baixar o topete e aderir às escolas municipais, estaduais e federais, exigindo um serviço de qualidade com o mesmo empenho com que fazem nas escolas da rede privada, continuaremos reféns de um mercado covarde e desleal, que é o mercado da educação, que só contribui para aumentar a desigualidade social.

5. Há sim muito discurso e pouca prática, muita hipocrisia e pouca vontade de mudar a situação.

Em 2011, convido a todos a refletir: que país queremos para nossos filhos?

E mais que isso: o que estamos fazendo hoje, no nosso dia-a-dia - como pais, profissionais e cidadãos - para termos esse país que idealizamos?

A revolução política agora é interna e diária: não adianta mais xingar o governo, pôr a culpa em terceiros, reclamar aos quatro cantos.

A culpa é nossa e somos nós mesmos, a cada atitude e escolha que fazemos, que temos que reverter esse processo: educando nossas crianças com mais afeto e (como não?) boas doses de INGENUIDADE.

À professora que chorou, todo o meu respeito. Às professoras e funcionários da E.E. Brigadeiro Faria Lima que nos ajudaram, em 2010, nessa tarefa tão (árdua) importante que é educar nossos filhos, todo o meu afeto. Essa gente me dá orgulho de ser brasileira.

E para quem duvidou, eu repito em caixa alta: "SIM, É POSSÍVEL!"

Estão aí os meus filhos, que tiveram um ótimo desempenho escolar este ano, para comprovar.

Lembre-se: ESCOLA PÚBLICA NÃO É DE GRAÇA.

Nós pagamos e muito.

E quem vai pegar o dinheiro de volta?



Escrito por vanessa.cabral às 16h55
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AUMENTA QUE ISSO AÍ É MPB!

Chico Buarque, Cartola, Milton Nascimento, Caetano Veloso... Meu caçula anda empolgadíssimo com a boa música que está aprendendo a cantar na escola. Faz parte do projeto Ler e Escrever: um livro com exercícios extras para reforçar o aprendizado. Simples, não? Ensina as crianças a ler com o melhor da MPB.

Parece bobagem, mas com isso alinhavam o ensino com a cultura: dar referências de alto nível, muito além do que se vê na televisão ou nas rádios pops pode ser a solução para diminuir o abismo cultural que enfrentamos no país.

Não consigo entender como os noticiários da TV podem estranhar, por exemplo, os tantos casos de bullying e perseguições à homossexuais se são os próprios canais de TV que veiculam programas que incentivam a violência e o preconceito. Sob a desculpa de que estão fazendo humor, não fazem nada além de bullying. O que é o Pânico na TV senão uma coletânea de bullyings? Depois as crianças passam a semana toda xingando os colegas da escola com o bordão: "Boiola", com a mesma entonação que repetem no programa.

E essas novelas? Só briga, grito e mau caratismo all the time.

Ah! A culpa é dos pais que deixam seus filhos assistir a esses programas. Em parte, sim.

Por outro lado, essas pessoas aí que hoje têm filhos também cresceram vendo a nossa TV baixaria. Nem sabem que aquilo é ruim - essa é a verdade.

Tanto que quando levantei esse assunto em uma reunião de pais na escola das crianças, muitas mães se mostraram contra: não acham nada demais que os filhos vejam Pânico, novelas e Big Brothers.

"Você é muito radical. O que que tem ver novela? Lá em casa todo mundo gosta", uma das mães defendeu.

Pois é: nada demais. Então por que será que os alunos da quarta série insistem em xingar os colegas de boiola, viado etc.

Esse levante contra homossexuais também é fruto de uma massificação, disfarçada de humor, em programas de entretenimento.

E quem pensa que o baixo nível cultural é coisa de escola pública está bem enganado. Vá lá no site do Colégio Sagrado Coração de Jesus, uma instituição de ensino particular de São Paulo: entre as fotos dos trabalhos de arte dos alunos, tem as capas de CDs feitas pela turma do sexto ano: na metade, dos meninos, tem fotos de jogos de guerra, com imagens violentas e armas pesadas; na outra, das meninas, tem mulheres em poses eróticas e seminuas, bem ao tom das beldades do funk ou do axé. Isso numa escola com esse nome, dirigida por uma entidade religiosa.

Não, não sou puritana. Mas, convenhamos: já que a proposta era fazer capas de CDs, por que não botaram essa turma para desenhar, cortar e colar, pintar???? Não, preferem limitar a imaginação e fazê-los repetir o padrão do mercado, com imagens que massacram na cabeça dos adolescentes diariamente.

E depois esperam que esses jovens sejam pacíficos, serenos e amorosos. Como?

O comportamento da garotada só repete as imagens que os hipnotizaram desde que nasceram.

E como educaremos crianças livres e de mentes abertas, se os pais também foram moldados nessa ode ao preconceito?

Aumentando o acesso a cultura: livros, filmes, exposições de arte, músicas INSPIRADORAS.

Obras que despertem o melhor do ser humano. Porque o pior de nós já está mais do que escancarado.

E a escola, pública ou privada, é um retrato desse quadro deplorável.

A saída: ALEGRIA! ALEGRIA! 

"Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento..."

É lindo ver as crianças da segunda série cantar a plenos pulmões.



Escrito por vanessa.cabral às 19h15
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EPIDEMIA: INCOMPETÊNCIA PEGA!

 

Hoje de manhã, eu e meu marido vivemos uma cena prosaica:


- "Oi, nós gostaríamos de conhecer a escola. Meu filho está concluindo o Fundamental I, no Brigadeiro Faria Lima, e queremos conhecer melhor a escola para onde ele viria", disse eu à senhora que estava na secretaria da E.E. José Cândido de Souza, na Rua Diana, Pompeia, zona oeste de São Paulo.

 

- "Hoje não tem ninguém para mostrar a escola. Faltaram professores e a coordenadora teve que juntar as turmas e substitui-lo."

 

- "Os professores costumam faltar muito?"

 

- "Sempre acontece, mas a coordenadora dá um jeito."

 

- "Quando eu poderia voltar para conhecer a escola?"

 

- "Seria bom você conversar com a diretora", ela sugeriu.

 

- "E como eu marco com a diretora?"

 

- "Não precisa marcar, é só vir aqui."

 

- "E se eu vier e ela não puder me atender, como aconteceu hoje?"

 

- "Hoje eu estou sozinha aqui na secretaria porque a outra secretária faltou. Então não tenho como te ajudar. Ela faltou hoje e eu faltei na sexta-feira, então está muito complicado."

 

- "É comum então todo mundo faltar aqui? Se eu não posso agendar uma visita, como vou saber que dia posso ser atendida? Tenho que dar sorte de chegar um dia aqui que ninguém tenha faltado e que a diretora não esteja ocupada e possa falar conosco?"

 

- "Mas o que você quer ver? Não tem o que ver. Isso aqui é uma escola estadual, normal, não tem nada para ver", ela definiu.

 

- "Bom, eu quero conhecer o lugar onde meu filho vai estudar. Mas, pelo visto, eu não posso..."

Saí de lá esbravejando [confesso!] contra tamanho desrepeito. Foi assim, com esse nível de atendimento e presteza, que nós fomos recebidos. É gente com essa mentalidade que forma adolescentes????!!!!!

 

O que me deixou mais indignada é que esta senhora não entendeu porque eu achei a sua atitude um absurdo: esta funcionária acha normal faltar o trabalho, acha normal não dar informações precisas, e acha bem anormal um casal aparecer por lá, na secretaria de uma escola!, querendo ver as instalações, conhecer a diretora, saber como se conduz ali naquele lugar a prática do ensino.

O que eu queria ver, minha senhora?

Nada além do costume: a estrutura das salas de aulas, a limpeza dos banheiros, a cara dos professores e a postura dos profissionais que cuidariam da formação escolar do meu filho diariamente. E isso não é pouco. Também gostaria de ouvir da coordenadora pedagógica como ela enxerga a educação de jovens dessa faixa etária, como as aulas são ministradas, que recursos utilizam, como são os livros didáticos, como é o sistema de avaliação. Enfim, aqueles itens sobre os quais habitualmente os pais procuram se informar, antes de entregar seus filhos nas mãos dos outros.

Estamos falando de formação de pessoas. É um serviço sério, que exige organização e dedicação, não? Parece que não. O serviço que prestam parece nos dizer: "É para pobre, qualquer coisa serve. O que afinal essa mãe quer ver aqui?" Essa é a mentalidade.

Em qualquer escola particular, nós agendaríamos uma visita, nos mostrariam as dependências do prédio, os espaços por onde meu filho circularia, e depois um pedagogo nos explicaria a prática educacional aplicada ali. Depois disso, nós, consumidores conscientes, decidiríamos se eles oferecem o serviço da qualidade que procuramos. Na rede pública, o consumidor é tratado como uma aberração: "o que você quer ver? Não tem nada para ver". Ou seja, eu tenho que "contratar" os serviços no escuro, sem saber onde e como meu filho será tratado.

RESPEITO: Era o mínimo que poderiam servir no cardápio das escolas.

Pois eu pergunto: que exemplos essas pessoas que vivem matando o trabalho podem dar para jovens adolescentes? Não me admira ver o comportamento dos alunos na saída do Cândido. Já os vi várias vezes jogando objetos nos carros, tacando pedrinhas de jardins nos pedestres, invadindo a rua em bando, tocando o terror. A culpa é deles? Será que são tratados com o devido respeito? Óbvio que não.

Pessoas que são tratadas com respeito não desrespeitam. Essa frase não é minha. É do Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc de São Paulo há 26 anos. Sou fã total do Sesc: serviço e programação cultural de alta qualidade, em instalações de primeira, e totalmente acessíveis para todos os públicos. Em uma entrevista inspiradora - na edição de novembro da revista Poder Joyce Pascowitch [www.revistapoder.com.br], o cientista social dá uma aula de gestão cultural e de educação. A seguir alguns trechos:

"Recurso sozinho não adianta. Se fizessem [na escola pública] como a gente faz [no Sesc], a situação do país com certeza seria outra. Nós levamos em conta alguns elementos básicos e o mais fundamental é o preparo do pessoal. Temos uma política de investimento nas pessoas que trabalham no Sesc muito acentuada, com bolsas de estudos, treinamentos no Brasil e no exterior. Reconhecemos que isso traz um retorno enorme, seja no aperfeiçoamento do serviço, seja para a sociedade."

"Quando uma escola é depredada, ela tem de ser fechada e reformada. Tem de investir na qualidade de modo que se ensine também com o equipamento e não apenas com a professorinha, coitada, se esgoelando lá na frente. Um banheiro limpo ensina muito. (...) Já houve quem criticasse o Sesc: para que utilizar granito no banheiro se é o povão que vai usar?"

"Estamos construindo essa unidade nova no Belenzinho [que inaugura em 4 de dezembro] usando os melhores materiais. Por quê? Porque a gente educa até pela arquitetura e pela limpeza dos banheiros, pela presteza e exatidão da informação, pelo preparo dos profissionais e pela qualidade do alimento - seja para o corpo ou para a alma.Qual é o segredo? São os recursos, mas insisto: recursos não faltam de modo geral."

"Quando a população é respeitada ela não desrespeita. Em Santo André, o Sesc está entre três favelas e não tem um piche no muro. Por quê? Porque são todos bem acolhidos. Ninguém estraga o jardim, quebra o banheiro, nada. As pessoas sentem o respeito de forma clara, percebem que tudo ali foi feito com amor, para usar uma palavra que anda bem desgastada."


Ou seja, 

É possível? Sim.

Temos recursos? Sim.

Faltam talentos? Não.

O que falta, então? A cultura da eficiência.

SOS!!! Essa mentalidade tacanha emperra o crescimento do país. Enquanto tivermos maus profissionais, sem infraestrutura para prestar um bom serviço, gastaremos energia (e recursos) em vão: feito cão doido, correndo atrás do próprio rabo. 



Escrito por vanessa.cabral às 16h24
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PRESSÃO POPULAR

Este e-mail está rolando pelo Brasil todo, como uma corrente na internet. Esta vale ler e recomendar: é sobre um projeto apresentado pelo senador Cristovam Buarque, que com certeza mudaria a educação neste país.

 


Uma ideia muito boa do senador Cristovam Buarque
Ele apresentou um projeto de lei propondo que todo político eleito (vereador, prefeito, governador, deputado, senador e presidente) seja obrigado a matricular os filhos em escola pública. 

As conseqüências seriam as melhores possíveis:
Quando os políticos se virem obrigados a colocar seus filhos na escola pública, a qualidade do ensino no país irá melhorar.

SE VOCÊ CONCORDA COM A IDEIA DO SENADOR, DIVULGUE ESSA MENSAGEM.


Ela pode, realmente, mudar a realidade do nosso país.
O projeto
PASSARÁ, SE HOUVER A PRESSÃO DA OPINIÃO PÚBLICA.

http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166

PROJETO DE LEI DO SENADO Nº 480, DE 2007
Determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas até 2014.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

Art. 1º
Os agentes públicos eleitos para os Poderes Executivo e Legislativo federais, estaduais, municipais e do Distrito Federal são obrigados a matricular seus filhos e demais dependentes em escolas públicas de educação básica.

Art. 2º

Esta Lei deverá estar em vigor em todo o Brasil até, no máximo, 1º de janeiro de 2014.
Parágrafo Único. As Câmaras de Vereadores e Assembléias Legislativas Estaduais poderão antecipar este prazo para suas unidades respectivas.

JUSTIFICAÇÃO

No Brasil, os filhos dos dirigentes políticos estudam a educação básica em escolas privadas. Isto mostra, em primeiro lugar, a má qualidade da escola pública brasileira, e, em segundo lugar, o descaso dos dirigentes para com o ensino público.
Talvez não haja maior prova do desapreço para com a educação das crianças do povo, do que ter os filhos dos dirigentes brasileiros, salvo raras exceções, estudando em escolas privadas. Esta é uma forma de corrupção discreta da elite dirigente que, ao invés de resolver os problemas nacionais, busca proteger-se contra as tragédias do povo, criando privilégios.
Além de deixarem as escolas públicas abandonadas, ao se ampararem nas escolas privadas, as autoridades brasileiras criaram a possibilidade de se beneficiarem de descontos no Imposto de Renda para financiar os custos da educação privada de seus filhos.
Pode-se estimar que os 64.810 ocupantes de cargos eleitorais –vereadores, prefeitos e vice-prefeitos, deputados estaduais, federais, senadores e seus suplentes, governadores e vice-governadores, Presidente e Vice-Presidente da República – deduzam um valor total de mais de 150 milhões de reais nas suas respectivas declarações de imposto de renda, com o fim de financiar a escola privada de seus filhos alcançando a dedução de R$ 2.373,84 inclusive no exterior. Considerando apenas um dependente por ocupante de cargo eleitoras.
O presente Projeto de Lei permitirá que se alcance, entre outros, os seguintes objetivos:
a) ético: comprometerá o representante do povo com a escola que atende ao povo;
b) político: certamente provocará um maior interesse das autoridades para com a educação pública com a conseqüente melhoria da qualidade dessas escolas.
c) financeiro: evitará a “evasão legal” de mais de 12 milhões de reais por mês, o que aumentaria a disponibilidade de recursos fiscais à disposição do setor público, inclusive para a educação;
d) estratégica: os governantes sentirão diretamente a urgência de, em sete anos, desenvolver a qualidade da educação pública no Brasil.
Se esta proposta tivesse sido adotada no momento da Proclamação da República, como um gesto republicano, a realidade social brasileira seria hoje completamente diferente. Entretanto, a tradição de 118 anos de uma República que separa as massas e a elite, uma sem direitos e a outra com privilégios, não permite a implementação imediata desta decisão.
Ficou escolhido por isto o ano de 2014, quando a República estará completando 125 anos de sua proclamação. É um prazo muito longo desde 1889, mas suficiente para que as escolas públicas brasileiras tenham a qualidade que a elite dirigente exige para a escola de seus filhos.
Seria injustificado, depois de tanto tempo, que o Brasil ainda tivesse duas educações – uma para os filhos de seus dirigentes e outra para os filhos do povo –, como nos mais antigos sistemas monárquicos, onde a educação era reservada para os nobres.
Diante do exposto, solicitamos o apoio dos ilustres colegas para a aprovação deste projeto.
Sala das Sessões,
Senador CRISTOVAM BUARQUE 

Ei, você: está esperando o quê para pressionar o Congresso Nacional a votar esse projeto de lei?!

PRESSIONE.



Escrito por vanessa.cabral às 16h32
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POEIRA E MAIS POEIRA...

Estão trocando o piso das salas da escola das crianças.

"Que maravilha, não?", exclamou uma das mães, na reunião de pais.

Sim, amiga, uma maravilha. Mas isso tinha que ser feito em pleno período de aula????

Não existe uma Secretaria de Obras com funcionários suficientes para planejar reformas nas escolas públicas?

Em qualquer instituição de ensino decente, reformas são feitas nas férias escolares. Na rede pública, dane-se se as crianças terão de circular em meio ao pó, sujeira, cheiro forte de produtos e toda aquela bagunça de obra. Pobre não tem problema respiratório, né? Pobre está acostumado com ambientes sujos, largados e mal acabados, né?

Que absurdo. Isso é uma total falta de respeito com os consumidores. Sim, não pagamos por esse serviço?

Jamais numa escola particular, professores e alunos seriam expostos a esse tipo de coisa.

Mas as mães, coitadinhas, ainda levantam as mãos para os céus e agradecem a Deus por estarem trocando o piso. Nem passa pela cabeça delas que têm direito a uma escola pronta e acabada, com toda a infraestrutura, com arquitetura adequada para a educação, bem decorada e limpa. Nem passa pela cabeça delas que, com a quantidade de impostos que descontam de seus salários, não faltam recursos para isso.

Sem contar a vergonha que são os pedreiros que estão lá tocando a obra: uns dois ou três gatos pingados, sem uniforme e equipamento adequados. Não parece nem de longe que são contratados pela Secretaria de Obras do Estado de São Paulo. Mais parece a obra de um puxadinho numa favela. 

E esses homens ficam lá, circulando pela escola, entre crianças de 6 a 11 anos. Que beleza de exemplo de postura profissional que estamos dando às nossas crianças, hein?

Sem contar que toda a escola está em obra há anos. E nada se conclui. Começam fazendo a entrada, param. Voltam fazendo o pátio, param. Continuam na escada, param. E os alunos lá, convivendo com esse caos. E as faxineiras tentando inutilmente deixar as dependências da escola limpas. E as professoras mudando suas turmas de sala, de lá para cá. Sinceramente, precisa ser engenheiro ou arquiteto ou administrador para enxergar que está tudo errado???

Vou às unidades do Sesc São Paulo - que também são mantidas por contribuição -, e me pergunto: por que conseguem oferecer instalações tão bem feitas, com infra total, organização e limpeza - fora a qualidade cultural da programação - e nas escolas públicas é sempre aquela zona, com construções inacabadas, que mais parece que estamos em guerra???

Falta de respeito, acho que é a resposta.

"É pra pobre, tanto faz" - parece que é assim que pensam os gestores públicos.


E aí visito o site do Colégio Bandeirantes, por exemplo, com toda aquela infra, e caio no choro.

Inevitável não lamentar a revoltante desigualdade que reina descaradamente neste país.

 

DILEMA BURGUÊS

Assumo que andei pensando em mudar meu filho mais velho, que entrará no Fundamental II ano que vem, para o Bandeirantes. Meu marido estudou lá, e eu, numa baita escola no Rio, com toda a estrutura possível. Eu sei a diferença que faz estudar (e viver) em ambientes bem construídos, próprios para a boa educação. Também fico pensando se não estou privando meus filhos desse direito, já que podemos pagar por isso. Ainda que com o resultado do nosso trabalho, já que não somos herdeiros de nada, mas poderíamos sim pagar.

Por outro lado, e as outras crianças? As que de fato precisam da rede pública de ensino? Não seria injusto com elas?

Uns amigos me mandaram parar de viajar, porque se eu educar bem os meus filhos já estou contribuindo e muito. Não, eu não acho. Não é justamente por causa dessa mentalidade individualista que chegamos a essa situação?

Não adianta pensar só nos meus filhos. Eles não vivem no mundo sozinhos. Ainda que tentemos, na sociedade contemporânea, repetir os modelos feudais e nos fechar em condomínios e guetos sociais, excluindo tudo e todos que não fazem parte do nosso círculo social, em algum momento somos obrigados a enfrentar a realidade aí fora. A pressão social cobra a conta pela nossa omissão. Aí não entendemos porque nosso filho foi morto, porque roubaram nosso carro, porque tanta violência a nossa volta. E não nos damos conta que a escolha da escola de nossos filhos, por exemplo, contribuiu para a realidade que temos - embora nos empenhemos em não enxergá-la.

Se os filhos dos políticos, como já comentaram aqui no blog, estudassem em escolas públicas, será que deixariam as construções em ruínas daquele jeito?

Lamentável a falta de visão e a omissão na qual estamos imersos. 

Sim, é nossa responsabilidade também. Minha e sua.

 

Exercício de democracia

Meu filho mais novo estava empolgado, ontem, procurando um livro bacana na estante do quarto dele, para levar para a escola. 

"É que hoje vai ter votação de história", justificou Ian.

Funciona assim: as crianças levam livros de histórias para serem lidos para toda a turma. Quando tem mais de um livro, a professora faz uma votação. A história mais votada, é lida por ela, para todos. Legal, não? Esse não é um excelente exercício de democracia?

Com isso, as crianças da segunda série estão aprendendo a:

1. Votar, fazer escolhas;

2. Aceitar a opção da maioria.

3. Compartilhar conhecimento.

Temos aí, com um exercício simples, uma chance de formar eleitores inteligentes.



Escrito por vanessa.cabral às 19h30
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SOM NA CAIXA!

 

"Mamãe, aprendi a dançar frevo!", Arthur nem esperou que eu chegasse em casa para contar. Me ligou super empolgado.

"Como assim, você teve aula de frevo?", perguntei.

"Melhor que aula. No intervalo, colocaram música e fizemos uma roda. Todo mundo dançou. E meus amigos me ensinaram um monte de passos de street dance. Depois, tocaram frevo e começamos a 'frevar'", falava eufórico.

Antes de dormir, meu filho disse que não via a hora de ir pra escola no dia seguinte, para dançar com os amigos de novo e aprender novos passos.

Incrível, não? Apenas UMA MÚSICA NO INTERVALO: une, socializa, inspira o intercâmbio cultural, empolga, faz as crianças queimar energia (aquela que ficaria sobrando e se traduziria como agitação e indisciplina em sala de aula) e ainda cria uma ligação do aluno com o espaço da escola.

Uma ideia criativa, inteligente e barata, que não depende de recursos ou investimentos extras. O investimento é a boa vontade dos educadores.

E já está mais que provado (e falado, mas não custa repetir): crianças felizes aprendem mais.

Sem contar o trunfo da professora, que ganha o respeito dos alunos pela via da afetividade e admiração, e não pelo castigo e repressão.

Escola não é lugar de sofrer. É lugar de descobrir o mundo. Aquele cheio de curiosidades e que vale a pena conhecer.

 



Escrito por vanessa.cabral às 18h30
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História da Carochinha

Meu filho chegou em casa comentando a prova de História que fez na escola.

"Com quantos anos D. Pedro I chegou ao Brasil?"

"Em que data..."

Eram nessa linha as questões da prova da quarta série. Pensei que já havíamos passado da fase das perguntas "decorebas". Hoje temos internet, esses dados pontuais podemos encontrar facilmente em qualquer site de busca. O que interessa (mesmo!) é explicar o contexto em que cada fato aconteceu, não? Fazer os alunos refletir sobre o passado do país, não?

Eu, que tenho 37 anos, já tive a sorte de estudar História de uma maneira mais inteligente, com professores que nos faziam pensar (e não decorar datas e detalhes bobos), e com uma bibliografia mais interessante, como os livros do Rubim Aquino. Então, imaginei que hoje o estudo de História do Brasil tivesse avançado. Pelo visto, não.

E depois Arthur me contou o que a professora lhe disse sobre a Independência do Brasil: "D. Pedro gostava muito do Brasil e achou por bem se separar de Portugal." Como é que é????

SOS! História é uma matéria importantíssima para se entender o país, nossa identidade e porque hoje as coisas são como são. É uma irresponsabilidade contar versões tolas sobre o passado, subestimando a capacidade de compreensão das crianças.

Lembrei como eram emocionantes os textos do Aquino e como me fizeram gostar de estudar História. No dia seguinte, corri para uma livraria atrás do Sociedade Brasileira: Uma História. Não tinha, tive de encomendar e aguardo ansiosa.

Enquanto isso, estamos lendo o 1822, um lançamento que retrata exatamente o período da Independência. O texto do Laurentino Gomes é tão saboroso que estamos lendo (eu e meus filhos) toda noite, como a história da hora de dormir. E os comentários das crianças são ótimos, críticos e engraçados, pegam a essência do texto.

"E pensar que a minha professora me enganou todos esses anos", disse o Arthur, depois que lemos o primeiro capítulo sobre o fatídico dia do Grito do Ipiranga. Detalhe: ele tem 11 anos.

História é um ótimo programa de família, quem diria? 

Não vejo a hora do nosso exemplar do Aquino chegar.



Escrito por vanessa.cabral às 18h52
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OS MEDÍOCRES TAMBÉM INSPIRAM 

Uma amiga me ligou indignada, queria me convencer a bloquear os comentários maldosos que postam aqui no blog. "Não contribuem com nada, sequer comentam os assuntos abordados nos seus textos, parecem que não estão lendo o que você escreve. É gente desocupada querendo detonar", me disse ela, eufórica. 

Ok, ok. Eu sempre fico com essa dúvida, se devo ou não liberar essas mensagens grotescas. Quando a coisa está muuuuito além do limite, eu apago. O que não me deixa nada feliz, já que, em tese, este deveria ser um espaço totalmente aberto, com total liberdade de expressão. Gente, é um blog na Web!!!! Se não tivermos liberdade total aqui onde teremos???

Já estamos vivendo um momento de demonstrações expressivas contra a liberdade de imprensa. Sim, parece que tem político com saudade da ditadura.

E (olhe o exemplo!) censura aqui na Internet? Melhor não. 

Acontece que essa amiga não é a primeira que reclama. É um pedido recorrente, de gente que me conhece pessoalmente ou não.

Sei que pode ser patético ler agressões descabidas, quando o que se quer é encontrar inspiração, novas possibilidades e experiências.

Por outro lado, (será que estou viajando?!) todas as opiniões são válidas, se considerarmos que expressam a mentalidade que temos por aí, e bem mais próxima de nós do que imaginamos.

O anonimato da Internet serve bem a esse propósito: pessoas que não teriam coragem de (ou não sabem como) expressar seus preconceitos, frustrações, medos e agressividade, têm aqui essa oportunidade, sem precisar se identificar com seus verdadeiros nomes. Podem se comportar abertamente, sem se preocupar com o tal do papel social. Então, exibem em potência máxima o que passa por suas cabeças.

E penso como nos são úteis, para nos lembrar constantemente que tipo de mediocridade temos de combater: na escola de nossos fillhos, no nosso trabalho, na nossa casa.

E quando me veio a ideia deste blog não foi justamente por isso: investigar se nossos preconceitos contra a escola pública procedem. E mais que isso: se o abismo social em que vivemos é necessário.

Então, amigos, paciência com os medíocres, e olho atento às dicas valiosas e muito apreço pelas boas histórias, que são várias.

Tenho convicção: a única maneira de fazer a mentalidade evoluir é agregar a todos. Inclusive os chatos, os raivosos e os frustrados. Até porque, na ignorância em que estamos imersos, eles são até divertidos.

E tudo pode ser inspirador. Até a mediocridade.

  



Escrito por vanessa.cabral às 16h23
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REVOLUÇÃO NO DIA A DIA

Como a escola que meus filhos estudam vai até a quarta série, ano que vem, meu mais velho terá de ir para outra escola. Andei pesquisando na internet, em matérias de jornais, perguntando a amigos e, finalmente, fui visitar uma escola que andamos observando (de longe) há uns três anos. É a EMEF Desembargador Amorim Lima, em São Paulo, que fez uma revolução no sistema pedagógico e implantou há 9 anos uma nova didática, baseada em roteiros de pesquisa, uma releitura da escola da Ponte, em Portugal.

Sei que já esbravejei muito contra escolas que dizem seguir o modelo da Ponte. É que as particulares onde meus filhos estudaram não conseguiram traduzir para a realidade brasileira as sutilezas dessa brilhante experiência portuguesa. Ficaram na superficialidade da forma, apenas derrubaram as paredes das salas e não deram um salto adiante, não romperam com o padrão "professor discursando para alunos". Ficaram assim no meio do caminho e confundiram autonomia com bagunça e desorganização.

Pois me pareceu que a Amorim Lima (vejam só uma escola municipal) deu esse salto. Diz o pessoal de lá que muito apoiado pelos pais, pela comunidade. A escola fica no Butantã, lá pros lados da USP. E sobra vagas, porque não é todo pai que está disposto a investir nessa revolução pedagógica. O que dá para entender, claro.

Quem aposta, não quer saber mais da velha fórmula. Uma conhecida me enviou este vídeo sobre a escola, no link: http://www.dailymotion.com/video/xa5xdh_visitando-o-amorim_school

E também tem um site (o que não é comum nas escolas públicas), muitas matérias em jornais, revistas e TV. E vídeos no YouTube. Vale conhecer. 

Tenho amigas entusiastas da iniciativa, como também outras que desistiram e tiraram seus filhos de lá. Não é toda criança (ou família) que se adapta ao modelo.

Mas fico feliz com a possibilidade de escolha. E resolvemos apostar.

Por causa de detalhes que observamos na nossa visita. Sim, os detalhes são importantes. A maneira com que as alunas da sexta série, que nos mostraram a escola, se expressam. Os alunos eufóricos em sala de aula, vivos, e não tal qual múmias, fingindo-se de mortos, entediados em suas cadeiras, como é comum vermos em escolas tradicionais. Os roteiros de pesquisa organizados por temas inteligentes, que unificam os currículos das diversas matérias de cada série, e foram elaborados por um especialista pós-doutorando da USP. A biblioteca arrejada e aberta ao público nos fins de semana. O forno de pizza, a rampa de skate, a horta orgânica, que convidam a comunidade a entrar e tratar o espaço público como seu. A casa de índio, a aula de capoeira, as poesias pintadas na parede, expressões da cultura brasileira. Além da sinceridade no discurso da diretora, que não quis nos vender seu projeto. Mais que isso, ela relatou uma série de perrengues que passaram desde que resolveram implantar o novo modelo.

Fazer diferente dá um trabalhão danado.

Ok, preferimos correr o risco. Mais do que nos vestir de múmias e vivermos por aí sonâmbulos, sem tentar algo que nos pareça valer a pena.



Escrito por vanessa.cabral às 19h22
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PRECONCEITO EU?

Fiz uma entrevista com o psiquiatra José Angelo Gaiarsa, que, aos 90 anos, acaba de lançar mais um livro: Lições de Amor para Sobreviver ao Casamento.

Doutor Gaiarsa dispara FRASES INTENSAS, que mexem com conceitos arraigados na nossa mente e na composição social. E, como passou meio século ouvindo pacientes em seu consultório, deve saber do que está falando. Ele é um especialista em família e educação. Quem puder lê-lo, vale a pena. No Youtube, tem trechos de entrevistas dele.

Aviso aos navegantes: NÃO ESTOU GANHANDO NADA PARA FALAR SOBRE ESTE LIVRO AQUI, ok? Li, gostei muito e quero compartilhar, porque é informação preciosa.

 

Trechos do livro

"As pessoas são péssimas em perceber diferenças e aprendem desde cedo a procurar semelhanças - que dão segurança."

"Você não prefere mandar em vez de negociar? Mandar parece mais fácil, não é? Porque nos foi ensinado e fomos duramente treinados a essa simplificação/adulteração da vida: um chefe e um bando obediente são muito mais fáceis de imaginar do que uma democracia - todos dando suas opiniões, não raro bem divergentes, mais o trabalho de tentar conciliar os pareceres e os desejos de todos. Coletivamente, nos comportamos como débeis mentais..."

"O único perigo real - natural - do mundo de hoje é o próprio homem, sua agressividade e megalomania. Afora essa nossa loucura, todos sabem que poderíamos viver hoje num paraíso aqui, na Terra. Então - e só então - poderemos saber o que é ser humano, quando formos capazes de oferecer aos que nascem condições ideais de desenvolvimento, proporcionando-lhes meios e instrumentos variados e permitindo-lhes grande liberdade de experimentar com um mínimo de restrições."

"A maior parte das pessoas comporta-se ou existe como os carrapatos, em um vida operosa, simplória, monótona, quase sem prazer nem gosto."

"(...) as pessoas vivem assustadas e encolhidas diante de um grande mundo cheio de surpresas e - conforme a visão da família - muito mais cheio de ameaças do que de promessas. Todos os "nãos" da infância são devidos a fantasmas e perigos, a maior parte deles imaginária."

"A natureza não gosta muito de variações - nem as mamães, nem os professores, nem as regras sociais. (...) Por isso, educar consiste em dizer não milhares de vezes, lembra-se? É para restringir os movimentos da criança até que ela caiba em nossos moldes restritos e restritivos, para fazer dela uma pessoa "NORMAL", tão presa, medrosa e frustrada quanto quase todos nós, os "adultos", "maduros" e "normais"."

"Os seres vivos dispõem de gigantescas antenas sensoriais, (...) capazes de captar 1001 sensações - calor, frio, aspereza, dor, prazer, contato, cores, formas, gostos, cheiros e muito mais. Mas nossos esquemas motores, pedagogicamente limitados, só nos permitem perceber, reconhecer, aceitar e responder a um número mínimo dessas sensações."

"Segurança acima de tudo! Acima de tudo e a qualquer preço - esse o mal, porque com isso se vão o amor e toda a possibilidade de transformação real dos costumes pessoais e sociais, de transformação de uma humanidade implacavelmente predadora de si mesma em uma humanidade não apenas orgulhosa, mas - enfim! - amorosa de si mesma."

"(...) pensar antes de falar em vez de ir soltando tudo que vem à cabeça. Porque tudo que vem facilmente à cabeça com certeza é preconceito, frase feita, dita sem consideração pelo momento nem pelos indivíduos que interagem."

"Sabe quais são os seus dois preconceitos mais fortes? 'Eu não tenho preconceitos.' 'Preconceitos são coisa de gente ignorante, grossa, quadrada, reacionária, conservadora, careta, babaca...' Melhor dizer, meu amigo: cada um (cada família, cada grupo) tem seus preconceitos. É mais verdadeiro, mais humilde, mais humano e mais desumano."

"Um grupo é mais seguro - mais forte - do que um indivíduo isolado (sempre a segurança em primeiro lugar!). E, desde sempre, se não é do meu grupo é suspeito, é perigoso, é mal-intencionado, é 'inimigo'. Mas é também surpresa, inovação e renovação - por isso é perigoso!"

"Se família é tão perfeita para formar (educar) pessoas, e se a maioria dos civilizados tem e formou-se em família, por que então o mundo continua - com o perdão da expressão - uma merda?"

"O primeiro passo para você, minha senhora, começar a se comunicar de verdade com seus filhos é esquecer essa encenação da Mãe que sabe e resolve tudo. Você já pensou quanto lhe custa essa 'glória'? Não pesa demais?"

"É patético ouvir mães - ou professores! - falando de tudo que fizeram de 'certo', com as melhores intenções e o máximo de sacrifícios, e, 'apesar de tudo', não conseguiram o que pretendiam; ocorreram consequências não só incompreensíveis (à luz do que a pessoa fez) como também contrárias ao que se esperava ou desejava. A conclusão é evidente: a culpa é da criança - ou do aluno!"

"(...) a eternização de comportamentos e pensamentos inerentes aos papéis e preconceitos tende a mumificar as relações pessoais e sociais, a formar uma estrutura dinâmica autossustentada à custa da infelicidade particular de todos"

"Em relação a pais ou mães brutais, impacientes, infelizes, esse esquema 'garante' impunidade diante de agressões monstruosas a crianças. E ninguém se mete "Porque pai é pai e sempre sabe o que faz". Sabe de quem é a culpa nesses casos tão tristemente frequentes? Eu poderia dizer que é sua também, mas prefiro dizer que é nossa, de todos, por vivermos papagaiando frases tolas e desconexas como se fossem verdades eternas e sagradas. Elas são, isso sim, os elos das correntes que nos mantêm escravizados."

"Por essas e outras razões, acabei concluindo: os seres humanos não brigam pela verdade nem pelo bem; os seres humanos precisam brigar porque são agressivos, e então qualquer diferença é boa para ser usada como pretexto, justificativa ou desculpa para agredir, principalmente quando apoiadas pelos costumes sociais."

"Afirmações que contadigam a declaração preconceituosa podem provocar reações sérias, até fuzilamento, fogueira, linchamentos, péssima fama, perseguições implacáveis e muito mais. O Sistema é implacável contra qualquer oponente."

"(...) repressão alcança, além do sexo e da agressão, tudo que é 'infantil', isto é, toda a alegria espontânea, a curiosidade e o entusiasmo, a disposição para brincar, cantar, dançar - amar."

"Em vez de criar crianças brincando e aprendendo com elas, nós transformamos a educação em um dever pesado demais, muito caro - e incrivelmente ineficiente!"

E por aí vai.

Obrigada, Gaiarsa! 


 



Escrito por vanessa.cabral às 14h23
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