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Escola pública não é de graça
 


EPIDEMIA: INCOMPETÊNCIA PEGA!

 

Hoje de manhã, eu e meu marido vivemos uma cena prosaica:


- "Oi, nós gostaríamos de conhecer a escola. Meu filho está concluindo o Fundamental I, no Brigadeiro Faria Lima, e queremos conhecer melhor a escola para onde ele viria", disse eu à senhora que estava na secretaria da E.E. José Cândido de Souza, na Rua Diana, Pompeia, zona oeste de São Paulo.

 

- "Hoje não tem ninguém para mostrar a escola. Faltaram professores e a coordenadora teve que juntar as turmas e substitui-lo."

 

- "Os professores costumam faltar muito?"

 

- "Sempre acontece, mas a coordenadora dá um jeito."

 

- "Quando eu poderia voltar para conhecer a escola?"

 

- "Seria bom você conversar com a diretora", ela sugeriu.

 

- "E como eu marco com a diretora?"

 

- "Não precisa marcar, é só vir aqui."

 

- "E se eu vier e ela não puder me atender, como aconteceu hoje?"

 

- "Hoje eu estou sozinha aqui na secretaria porque a outra secretária faltou. Então não tenho como te ajudar. Ela faltou hoje e eu faltei na sexta-feira, então está muito complicado."

 

- "É comum então todo mundo faltar aqui? Se eu não posso agendar uma visita, como vou saber que dia posso ser atendida? Tenho que dar sorte de chegar um dia aqui que ninguém tenha faltado e que a diretora não esteja ocupada e possa falar conosco?"

 

- "Mas o que você quer ver? Não tem o que ver. Isso aqui é uma escola estadual, normal, não tem nada para ver", ela definiu.

 

- "Bom, eu quero conhecer o lugar onde meu filho vai estudar. Mas, pelo visto, eu não posso..."

Saí de lá esbravejando [confesso!] contra tamanho desrepeito. Foi assim, com esse nível de atendimento e presteza, que nós fomos recebidos. É gente com essa mentalidade que forma adolescentes????!!!!!

 

O que me deixou mais indignada é que esta senhora não entendeu porque eu achei a sua atitude um absurdo: esta funcionária acha normal faltar o trabalho, acha normal não dar informações precisas, e acha bem anormal um casal aparecer por lá, na secretaria de uma escola!, querendo ver as instalações, conhecer a diretora, saber como se conduz ali naquele lugar a prática do ensino.

O que eu queria ver, minha senhora?

Nada além do costume: a estrutura das salas de aulas, a limpeza dos banheiros, a cara dos professores e a postura dos profissionais que cuidariam da formação escolar do meu filho diariamente. E isso não é pouco. Também gostaria de ouvir da coordenadora pedagógica como ela enxerga a educação de jovens dessa faixa etária, como as aulas são ministradas, que recursos utilizam, como são os livros didáticos, como é o sistema de avaliação. Enfim, aqueles itens sobre os quais habitualmente os pais procuram se informar, antes de entregar seus filhos nas mãos dos outros.

Estamos falando de formação de pessoas. É um serviço sério, que exige organização e dedicação, não? Parece que não. O serviço que prestam parece nos dizer: "É para pobre, qualquer coisa serve. O que afinal essa mãe quer ver aqui?" Essa é a mentalidade.

Em qualquer escola particular, nós agendaríamos uma visita, nos mostrariam as dependências do prédio, os espaços por onde meu filho circularia, e depois um pedagogo nos explicaria a prática educacional aplicada ali. Depois disso, nós, consumidores conscientes, decidiríamos se eles oferecem o serviço da qualidade que procuramos. Na rede pública, o consumidor é tratado como uma aberração: "o que você quer ver? Não tem nada para ver". Ou seja, eu tenho que "contratar" os serviços no escuro, sem saber onde e como meu filho será tratado.

RESPEITO: Era o mínimo que poderiam servir no cardápio das escolas.

Pois eu pergunto: que exemplos essas pessoas que vivem matando o trabalho podem dar para jovens adolescentes? Não me admira ver o comportamento dos alunos na saída do Cândido. Já os vi várias vezes jogando objetos nos carros, tacando pedrinhas de jardins nos pedestres, invadindo a rua em bando, tocando o terror. A culpa é deles? Será que são tratados com o devido respeito? Óbvio que não.

Pessoas que são tratadas com respeito não desrespeitam. Essa frase não é minha. É do Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc de São Paulo há 26 anos. Sou fã total do Sesc: serviço e programação cultural de alta qualidade, em instalações de primeira, e totalmente acessíveis para todos os públicos. Em uma entrevista inspiradora - na edição de novembro da revista Poder Joyce Pascowitch [www.revistapoder.com.br], o cientista social dá uma aula de gestão cultural e de educação. A seguir alguns trechos:

"Recurso sozinho não adianta. Se fizessem [na escola pública] como a gente faz [no Sesc], a situação do país com certeza seria outra. Nós levamos em conta alguns elementos básicos e o mais fundamental é o preparo do pessoal. Temos uma política de investimento nas pessoas que trabalham no Sesc muito acentuada, com bolsas de estudos, treinamentos no Brasil e no exterior. Reconhecemos que isso traz um retorno enorme, seja no aperfeiçoamento do serviço, seja para a sociedade."

"Quando uma escola é depredada, ela tem de ser fechada e reformada. Tem de investir na qualidade de modo que se ensine também com o equipamento e não apenas com a professorinha, coitada, se esgoelando lá na frente. Um banheiro limpo ensina muito. (...) Já houve quem criticasse o Sesc: para que utilizar granito no banheiro se é o povão que vai usar?"

"Estamos construindo essa unidade nova no Belenzinho [que inaugura em 4 de dezembro] usando os melhores materiais. Por quê? Porque a gente educa até pela arquitetura e pela limpeza dos banheiros, pela presteza e exatidão da informação, pelo preparo dos profissionais e pela qualidade do alimento - seja para o corpo ou para a alma.Qual é o segredo? São os recursos, mas insisto: recursos não faltam de modo geral."

"Quando a população é respeitada ela não desrespeita. Em Santo André, o Sesc está entre três favelas e não tem um piche no muro. Por quê? Porque são todos bem acolhidos. Ninguém estraga o jardim, quebra o banheiro, nada. As pessoas sentem o respeito de forma clara, percebem que tudo ali foi feito com amor, para usar uma palavra que anda bem desgastada."


Ou seja, 

É possível? Sim.

Temos recursos? Sim.

Faltam talentos? Não.

O que falta, então? A cultura da eficiência.

SOS!!! Essa mentalidade tacanha emperra o crescimento do país. Enquanto tivermos maus profissionais, sem infraestrutura para prestar um bom serviço, gastaremos energia (e recursos) em vão: feito cão doido, correndo atrás do próprio rabo. 



Escrito por vanessa.cabral às 16h24
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