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Escola pública não é de graça
 


 

COMPLEXO DE COLONIZADO

 

Os descrentes de plantão que me desculpem, mas eu estou a cada dia mais apaixonada pela escola pública. A EMEF Des. Amorim Lima, em São Paulo, é um oásis. E não só na rede pública. É um oásis no mercado de educação brasileiro. Sim, há tempos a educação virou um mercado, e dos mais lucrativos. E mesmo na rede particular a qualidade, como sabemos, não é lá essas coisas.  Ou temos os colégios de métodos tradicionais – que ainda estão formando pessoas para o velho mundo e não sacaram que a demanda de hoje (e de amanhã) é outra – ou temos as escolas que se ancoram no discurso manjado do construtivismo ou em experiências como a da Escola da Ponte, de Portugal, mas sem a coragem necessária para derrubar os muros da velha pedagogia. Ficam, assim, tateando no meio do caminho.

Pois eu fiquei um tempo sem escrever aqui. Preferi observar como as coisas se desenrolam no cotidiano da Amorim Lima, e (basicamente) se eles entregam o que propagam. O método de ensino lá é de fato arrojado, se comparado à cena clássica da sala de aula com um professor falando diante do quadro negro e alunos espectadores em suas cadeiras. Na prática, é bem simples: parece o método usado em um mestrado, onde o aluno faz sua agenda de estudo, o conteúdo segue roteiros de pesquisa e um tutor orienta pequenos grupos de pesquisadores. E as crianças lêem e escrevem muito, discutem os assuntos, debatem entre si (quem disse que autonomia e criatividade são fáceis de encarar? É bem mais cômodo ter alguém mandando em nós do que aprender a fazer escolhas e tomar decisões e depois arcar com as conseqüências – boas ou ruins.) Ouvi alguém dizer: “Talvez esse não seja um método para todos os tipos de pessoas, tem gente que nasceu para ser mandada”. Pode até ser, mas reflito aqui: tem gente que nasceu para ser mandada ou receber ordens é um costume já tão enraizado na educação – seja em casa, seja na escola -- que a pessoa não teve a oportunidade de desenvolver a capacidade que todo ser humano tem de fazer escolhas por si mesmo? Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Pois é.

E o método da Amorim vai além da tentativa de imitação da Escola da Ponte, que é exemplar, mas vem de outra sociedade. Na Amorim, ouve uma evolução e uma adequação à realidade do país e ao conteúdo proposto pelo MEC, sem perder o norte da educação democrática tão bem defendida pelo professor José Pacheco.  A receita tem, claro, ingredientes raros: uma diretora porreta, animada e sem medo de arregaçar as mangas e conduzir sua equipe com entusiasmo contagiante; educadores apaixonados por esse método de ensino e que acreditam que podem fazer diferença – e, sim!, apesar da falta de estrutura, das condições salariais e blábláblá --;  um grupo de pais heterogênico (de formações e níveis sociais diversos) que não só cobram um serviço eficiente como cooperam e trabalham em conjunto com funcionários e educadores; e, claro, alunos que têm voz e são ouvidos. Parece difícil de acreditar, não? Pois é, eu fiquei muda neste primeiro trimestre observando se a coisa era fato. E a cada reunião (e são muitas!!!) que consigo ir, a cada festa ou evento ou mutirão, a cada retorno dos meus filhos da escola, eu fico mais crédula de que é possível ter uma escola democrática, com um ensino não só eficiente como libertador. E o mais raro: com discussões pedagógicas de alto nível.

Aí vão dizer: "lá vem essa mãe iludida"... Claro que tem muito que evoluir e o pessoal que freqüenta a Amorim sabe disso bem melhor do que qualquer um de fora. Tanto que há um debate contínuo (e incansável) entre pais, educadores, funcionários e alunos. Mas iludidos estão aqueles que ainda hoje não acordaram que há um caminho viável a ser percorrido. E que pagar altas mensalidades não é garantia de um ensino que prepare seu filho para o mundo de amanhã.  

Pela primeira vez, na rede pública ou na privada, eu vejo o discurso se confirmar na prática. E sem frescura, sem achar que estão reinventando a roda e com muita honestidade, assumindo erros e fraquezas (que, aliás, é a melhor atitude para quem quer evoluir). A roda já foi inventada, por favor!!!! Mas podemos ser criativos na maneira de usá-la. E é isso que este século exigirá: criatividade. Aquele mundo que fizemos no século 20 está nas últimas, dizem os historiadores, os economistas, os filósofos, os psicólogos, os astrólogos... E a educação vai continuar a mesma?

Só não entendo uma coisa: se a Amorim já desenvolveu esse knowhow há nove anos porque as outras escolas (públicas ou particulares que querem seguir esse modelo de escola democrática) não usam essa experiência local? É mais fácil pararmos para ouvir o que vem de fora e, com aquele nosso complexo de terceiro mundo tinindo, queremos imitar o estrangeiro. Nada contra, vivemos (graças a Deus!) uma troca global. Mas também desenvolvemos conhecimento local, que merecia ser compartilhado. Boa parte dessas escolas particulares, nas quais já paguei altas mensalidades, poupariam um tempo enorme tentando reinventar o óbvio.  Mas parece que quando temos uma experiência que dá certo, morremos de ódio e até torcemos para que fracasse. No fundo, admitamos: o que cada um quer mesmo é continuar imitando os colonizadores. E Freud continua explicando essas cabecinhas do século passado.

 



Escrito por vanessa.cabral às 17h07
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