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Escola pública não é de graça
 


 

TOLERÂNCIA ZERO


Numa época em que TOLERÂNCIA é a palavra da moda, eu assumo que tenho me notado bastante intolerante. Definitivamente eu não tolero certas idiossincrasias. Não tolero, por exemplo, que não tenha nas escolas de ensino fundamental bibliotecas decentes. Dá pra engolir que, mesmo com o discurso padrão de que se deve estimular o gosto pela leitura, não tenha bibliotecas em escolas e muito menos a autorização para se contratar profissionais qualificados para organizar acervos e orientar os alunos na escolha dos livros? Dá pra tolerar que a rede pública de ensino não considere a função do bibliotecário necessária em uma escola? Ah! Mas temos salas de leitura: Ok! Um puxadinho para quebrar o galho.
Bom, enquanto a gestão pública não atenta para a contradição entre discurso e prática, é uma maravilha ver o empenho de pais e mães que, por iniciativa própria, montaram uma biblioteca de respeito na EMEF Amorim Lima, no Butantã, em São Paulo. E há mães que voluntariamente dão expediente na biblioteca, que foi criada para atender não só aos alunos como a comunidade local. E antes que alguém levante para tacar pedras com o velho argumento de que isso é uma obrigação da administração pública e não dos pais, vou logo defender: esse grupo de pais não iria ficar de braços cruzados, apenas reclamando da ineficiência de gestores e políticos. Esses pais sacaram que era melhor fazer as duas coisas: ao mesmo tempo em que pressionam e exigem um serviço de qualidade, tocam o barco para que seus filhos (e os filhos de seus vizinhos) tenham um acesso digno a uma
biblioteca de verdade.

Mas que vergonha eu tenho de um país que não acha que ter uma biblioteca em cada escola seja relevante no cotidiano da nossa Educação. Senhores secretários (municipais e estaduais), já não passou da hora de fazer algo a respeito? Além de gerar emprego, valorizar a função do bibliotecário, ainda atenderia ao discurso que políticos em campanha gostam tanto de repetir: “Temos que incentivar a leitura”. Que tal trazer o discurso para a realidade das escolas?
E essa não é uma contradição exclusivamente das escolas públicas. Quantas escolas particulares que conhecemos que têm uma boa biblioteca? Meus filhos estudavam em uma escola particular descolada, que prima por projetos culturais bem interessantes, e eu ouvi uma professora bem qualificada (minha amiga, até) dizer em uma reunião em que alguns pais sugeriram doar uma coleção do Monteiro Lobato para a escola: “Monteiro Lobato é muito chato. Tem uma linguagem arcaica”. Essa mesma escola tinha em seu “acervo” títulos bobocas como Capitão Cueca e Diário de Um Banana (ótimos para boas risadas, ok. Mas bem longe da literatura). E isso em uma escola de classe média alta, em um bairro nobre de São Paulo. Não estou falando de periferia... Não, eu não tolero essa hipocrisia.

E sabe o que eu também não tolero? O município gastou R$300 mil para pintar uma escola e, menos de dois meses após a reforma, as paredes já estavam rachadas, com vazamentos, e as portas e corrimãos descascando, um horror total. E por quê? Material de baixa qualidade, trabalho desqualificado, má administração dos recursos e por aí vai. Ou seja, jogamos dinheiro público fora. Nosso imposto foi parar na lixeira. Essa é a situação na Amorim Lima. A escola foi toda pintada em janeiro e o serviço de péssima qualidade está lá para quem quiser checar. Aquelas portas descascando parecem nos lembrar da mentalidade corrente: Ah! É para pobre, pode fazer de qualquer jeito. Não, não pode. E escola pública não é para pobre: é para todos. E todos merecem um retorno digno do imposto que paga.
E aí eu me pergunto: temos que tolerar isso? Por que as unidades do Sesc, por exemplo, conseguem fazer reformas duradouras e manter suas dependências sempre limpas e bonitas e nas escolas públicas, mesmo gastando-se tanto, os ambientes sempre parecem caóticos e inacabados e largados?
Lembro do que me disse o diretor do Sesc-Sp, Danilo Santos de Miranda (um sujeito que eu respeito muito, à propósito), em uma entrevista para a revista Poder (www.revistapoder.com.br), em outubro do ano passado: “Nós educamos até com a arquitetura”, ressalta Danilo e dá o exemplo de que, mesmo nas unidades do Sesc instaladas nas regiões mais desfavorecidas ou cercadas de favelas, ninguém depreda as instalações, estraga o jardim, joga lixo no chão ou picha os muros. Sabe por quê? “Quando a população sente que é respeitada, ela respeita”, ensina o gestor. Claro, se a pessoa chega em um lugar todo limpinho, bonito, com serviço de primeira e é bem tratada, ela se sente confortável e não vai zoar, né? O pensamento do Danilo é bem diferente do que um diretor de uma escola pública me contou que ouviu de um engenheiro da secretaria estadual de obras: “não adianta fazer um banheiro bonito, eles vão quebrar tudo”. Não, amigo. É justamente o contrário: se tivermos banheiros bonitos e limpos nas escolas, as crianças crescem acostumadas à limpeza e à boa estética. O sujeito quebra tudo por revolta, frustração e auto-estima baixa. Já viram alguém quebrar alguma coisa porque está feliz e sendo bem tratado?

Mas está lá nas paredes e portas da Amorim o resultado da reforma de R$ 300 mil. E isso dá para tolerar? Estamos rasgando dinheiro. A diretora da Amorim Lima mostrou há alguns meses o lamentável resultado da obra para o secretário municipal de educação de São Paulo, Alexandre Scheider, que foi muito legal de aparecer lá na escola durante um café da manhã dos pais. Só que até hoje, meses depois, eu vou à escola e a pintura mal feita está cada vez mais evidente, nas portas e paredes pra quem quiser ver. E não vou nem falar do acabamento, ridículo, tudo falhado e torto, feito de qualquer jeito. Confesso que olho para aqueles cantinhos mal retocados e aquela falta de capricho faz meu sangue subir (na verdade, confesso, outro dia me deu vontade de chorar): é muita falta de amor. É tratar o nosso bem comum com muito descaso e não pensar nas pessoas (nas crianças!!!) que frequentam esses espaços.

Hello! Não é frescura: ESTÉTICA É FUNDAMENTAL NA EDUCAÇÃO. Quando vamos receber uma visita na nossa casa, limpamos e arrumamos tudo para que a pessoa se sinta feliz e confortável, certo? Não nos empenhamos para oferecer o melhor? Pois temos que desenvolver na gestão pública essa mesma atitude: cada espaço público demonstra o empenho dos donos da casa, ou seja, dos gestores e da população. Eu tenho vergonha de receber alguém nessas nossas escolas. Elas demonstram o nosso desleixo com a educação do país. Volto a perguntar: dá para ser tolerante? Não, não dá.
Todo mundo também está careca de ouvir (e concordar) que a inclusão de portadores de deficiência mental e física é mais que necessária: é bom para quem tem e bom para os considerados “normais”, que aprendem a conviver e respeitar as diferenças. Só que, na prática, temos qualificado professores e funcionários das escolas para lidar com crianças portadoras de patologias psicológicas? Aliás, oferecemos acompanhamento psicológico para nossos alunos? Por que, em pleno século 21, um século pós-Freud, e com tanta discussão em torno do bullying e da violência nas escolas, ainda não temos psicólogos no quadro de funcionários das instituições de ensino? Dá para tolerar tanta incoerência? Não, não dá.

Então eu concluo que sou uma pessoa bastante intolerante. E não suporto esse discurso politicamente correto, sem uma prática equivalente. Os pais podem e devem cuidar da escola como se fosse uma extensão de suas casas -- o que de fato a escola é. Só que dá para os gestores dar uma ajudinha e usar o nosso dinheiro com mais eficiência? Que tal uma boa pitada de carinho e empenho na administração da nossa arrecadação fiscal??!!!
E nós, consumidores, vamos combinar? Diante da incompetência e do desinteresse: TOLERÂNCIA ZERO.

 



Escrito por vanessa.cabral às 19h56
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